Está lá tudo. Só foi necessário fazer contas...
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Os PIIGS vão ser os mais afectados pelo "oil peak"
Extraído de: The Oil 'Peak' Has Been Reached
PIIGS are the most affected
One of the groups in the OECD that will suffer most with the contraction of available oil is the one formed by those countries most dependent on oil in their energy mix, according to Luís de Sousa. "A detail must be noted - those countries in greatest difficulties will be precisely those called the PIIGS. These countries each have an oil dependence in their total energy mix of over 45%, including Greece with 58%, Portugal and Ireland with 55%, Spain with 48% and Italy with 46%. This is in contrast to the European Union average of 37%. If we add the four countries with oil dependency above the European average, but below 45%, we get a complete map of the zone where the 'undulating plateau' will have the greatest impact. Besides the PIIGS, this includes Austria (44%), Holland (42%), Belgium (41%) and Denmark (39%)."
The weakest sector for the five most vulnerable countries of the euro-zone (Portugal, Ireland, Italy, Greece and Spain) is the transport sector, particularly when road-based. "This dependency can derive from geographic location, inappropriate urban and national planning or both" says Luís de Sousa. He recommends increasing maritime and railway modes of transportation; it is not sufficient to modernize the electrical infrastructure or to encourage other sources of energy.
Read more: http://www.businessinsider.com/the-oil-peak-has-been-reached-2010-10#ixzz11QfwSggN
Ou seja, em 2011 a TEMPESTADE vai começar. Por isso segurem-se bem!
PIIGS are the most affected
One of the groups in the OECD that will suffer most with the contraction of available oil is the one formed by those countries most dependent on oil in their energy mix, according to Luís de Sousa. "A detail must be noted - those countries in greatest difficulties will be precisely those called the PIIGS. These countries each have an oil dependence in their total energy mix of over 45%, including Greece with 58%, Portugal and Ireland with 55%, Spain with 48% and Italy with 46%. This is in contrast to the European Union average of 37%. If we add the four countries with oil dependency above the European average, but below 45%, we get a complete map of the zone where the 'undulating plateau' will have the greatest impact. Besides the PIIGS, this includes Austria (44%), Holland (42%), Belgium (41%) and Denmark (39%)."
The weakest sector for the five most vulnerable countries of the euro-zone (Portugal, Ireland, Italy, Greece and Spain) is the transport sector, particularly when road-based. "This dependency can derive from geographic location, inappropriate urban and national planning or both" says Luís de Sousa. He recommends increasing maritime and railway modes of transportation; it is not sufficient to modernize the electrical infrastructure or to encourage other sources of energy.
Read more: http://www.businessinsider.com/the-oil-peak-has-been-reached-2010-10#ixzz11QfwSggN
Ou seja, em 2011 a TEMPESTADE vai começar. Por isso segurem-se bem!
Até o FMI diz isto:
Por cada 1% (em relação ao PIB) de corte do défice, o produto contrai 0,5% e o desemprego aumenta 0,3% ao longo dos dois anos seguintes...
ver aqui e aqui.
Agora imaginemos isto com o auxílio da subida inevitável do preço do petróleo devido ao aumento da procura e à impossibilidade de se poder aumentar a sua extracção - pelo efeito do pico petrolífero ou "peak oil".
ver aqui e aqui.
Agora imaginemos isto com o auxílio da subida inevitável do preço do petróleo devido ao aumento da procura e à impossibilidade de se poder aumentar a sua extracção - pelo efeito do pico petrolífero ou "peak oil".
Os "dias de lixo"
Segundo José Pacheco Pereira no Abrupto:
"O que aconteceu ao primeiro-ministro islandês, que vai ser julgado pela maneira como procedeu na crise bancária que levou o país à falência, devia acontecer cá. E não me venham meter no mesmo saco toda a gente dizendo que todos são responsáveis pela situação actual, a terminar no próprio povo (na versão de Almeida Santos), que é a melhor maneira de desresponsabilizar José Sócrates e o PS. O que aconteceu desde 2008, data já caridosa e benevolente, só tem um responsável. Pode ter havido e houve muitos erros de governação, alguns dos quais de responsabilidade do PSD e do CDS (que governaram, convém não esquecer, apenas dois anos para mais de quinze do PS), mas nada se compara a esta governação subordinada à vaidade e à prepotência de um homem que não se enxerga na sua irresponsabilidade. É de facto criminoso."
Sem dúvida que é um crime que ficará sem culpados. Esta corja de gente que hoje nos governa está de malas feitas a caminho da recompensa que os espera: um lugarzito muito bem remunerado numa empresa pública ou privada.
Depois de enganarem o povo, agora podem enriquecer sossegadamente...
"O que aconteceu ao primeiro-ministro islandês, que vai ser julgado pela maneira como procedeu na crise bancária que levou o país à falência, devia acontecer cá. E não me venham meter no mesmo saco toda a gente dizendo que todos são responsáveis pela situação actual, a terminar no próprio povo (na versão de Almeida Santos), que é a melhor maneira de desresponsabilizar José Sócrates e o PS. O que aconteceu desde 2008, data já caridosa e benevolente, só tem um responsável. Pode ter havido e houve muitos erros de governação, alguns dos quais de responsabilidade do PSD e do CDS (que governaram, convém não esquecer, apenas dois anos para mais de quinze do PS), mas nada se compara a esta governação subordinada à vaidade e à prepotência de um homem que não se enxerga na sua irresponsabilidade. É de facto criminoso."
Sem dúvida que é um crime que ficará sem culpados. Esta corja de gente que hoje nos governa está de malas feitas a caminho da recompensa que os espera: um lugarzito muito bem remunerado numa empresa pública ou privada.
Depois de enganarem o povo, agora podem enriquecer sossegadamente...
sábado, 2 de outubro de 2010
Trabalhos na praia
A última semana foi difícil pela insistência do negativismo das notícias que nos invadem os ouvidos todos os dias - a propósito do orçamento de 2011.
Mas, felizmente o trabalho tem corrido bem. A investigação dos sedimentos avança com múltiplos dados adquiridos em condições por vezes difíceis - como estas na praia da Almagreira:
Aqui estávamos no limite das condições aceitáveis para recolher sedimentos em suspensão com o auxílio de uma armadilha de sedimentos.
Mas as condições de Verão na Comporta recompensaram as tarefas mais difíceis dos outros trabalhos em condições mais invernosas:
Esta última imagem mostra os aparelhos a registarem as ondas, as correntes e a concentração de sedimentos em suspensão.
Agora estamos a tratar do volume enorme de dados e a tentar relacionar os diferentes registos. Vamos ver o que isto dá!
Mas, felizmente o trabalho tem corrido bem. A investigação dos sedimentos avança com múltiplos dados adquiridos em condições por vezes difíceis - como estas na praia da Almagreira:
| De Almagreira28Jun2010_2 |
Aqui estávamos no limite das condições aceitáveis para recolher sedimentos em suspensão com o auxílio de uma armadilha de sedimentos.
Mas as condições de Verão na Comporta recompensaram as tarefas mais difíceis dos outros trabalhos em condições mais invernosas:
| De Álbum geral |
Esta última imagem mostra os aparelhos a registarem as ondas, as correntes e a concentração de sedimentos em suspensão.
Agora estamos a tratar do volume enorme de dados e a tentar relacionar os diferentes registos. Vamos ver o que isto dá!
O Sr. Engenheiro no seu melhor!
Ele diz isto no seu "bad english" mas faz isto: http://www.publico.pt/Pol%C3%ADtica/governo-compra-mercedes-de-141-mil-euros_1459101
A matemática dos PEC's
PEC I, em Março de 2010.
PEC II, em Maio de 2010.
PEC III, em Setembro de 2010.
O PEC IV é capaz de ser anunciado ainda em Dezembro de 2010.
Assim, de PEC em PEC vamos ficando cada vez mais apertados. Tenho sérias dúvidas se Portugal existirá para lá destes PECs. Talvez fosse melhor, daqui em diante, esquecer o nome de Programa de Estabilidade e Crescimento e adoptar, ao invés, o nome de Programa de Instabilidade e Decrescimento - PID. Porque com tanto corte o PIB só irá decrescer e não crescer (que infelicidade Senhor Engenheiro, tenho o coração tão apertado). Assim, matematicamente falando, até ao anúncio do PEC IV, a equação económica de Portugal será:
PEC I + PEC II + PEC III = PID
Juntando o PEC IV, será:
PEC I + PEC II + PEC III + PEC IV= PID
Na última equação o PID é a negrito porque o decrescimento do PIB será ainda mais acentuado.
Ainda falta saber o que acontecerá à evolução do preço do petróleo durante os próximos tempos.
Isto não está fácil...
PEC II, em Maio de 2010.
PEC III, em Setembro de 2010.
O PEC IV é capaz de ser anunciado ainda em Dezembro de 2010.
Assim, de PEC em PEC vamos ficando cada vez mais apertados. Tenho sérias dúvidas se Portugal existirá para lá destes PECs. Talvez fosse melhor, daqui em diante, esquecer o nome de Programa de Estabilidade e Crescimento e adoptar, ao invés, o nome de Programa de Instabilidade e Decrescimento - PID. Porque com tanto corte o PIB só irá decrescer e não crescer (que infelicidade Senhor Engenheiro, tenho o coração tão apertado). Assim, matematicamente falando, até ao anúncio do PEC IV, a equação económica de Portugal será:
PEC I + PEC II + PEC III = PID
Juntando o PEC IV, será:
PEC I + PEC II + PEC III + PEC IV= PID
Na última equação o PID é a negrito porque o decrescimento do PIB será ainda mais acentuado.
Ainda falta saber o que acontecerá à evolução do preço do petróleo durante os próximos tempos.
Isto não está fácil...
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Trabalhos na praia
Estes têm corrido bem e têm mostrado quão complexa é a dinâmica sedimentar costeira. É complexa mas é natural e, de certo modo, previsível, ao contrário do género humano que é muito trapaceiro - veja-se o exemplo dos nosso políticos num dia como o de hoje (de má memória para todos os portugueses e portuguesas). Enfim, é preciso resistir a todas a vagas de erosão que se propagam sem parar...
terça-feira, 28 de setembro de 2010
A encruzilhada em que estamos metidos!
Os dilemas provocados pela crise orçamental
A Europa entre a austeridade e a renegociação da dívida soberana
Por Nuno Teles (publicado no jornal Público)
Nas últimas duas semanas, por coincidência, dois assuntos dominaram as páginas de economia dos jornais: a aprovação do Orçamento do Estado e a crescente dificuldade de financiamento do Estado português nos mercados de capitais. Não existe um nexo de causalidade necessário entre os dois temas, mas a sua relação é inescapável. Depois da crise em torno da dívida pública dos países do Sul da Europa em Maio, o Governo português comprometeu-se com um programa de estabilidade e crescimento, com o apoio político do PSD, que aponta para um duro caminho de austeridade (só ultrapassado, nas suas previsões draconianas, pelo plano grego). Assim, mesmo sem conhecer ainda o Orçamento, já sabemos o que nos espera: o Governo prevê uma diminuição da despesa pública em 1,3% do PIB em 2011, seguida, em 2012, por uma nova redução em 1,4% - as quais, a par do aumento dos impostos, permitiriam almejar os objectivos de contenção do défice em 3% do PIB e diminuição da dívida pública. Os cortes são, e terão de ser, cegos: na despesa social, no investimento público, nos salários, etc.
As imposições externas, somadas ao estranho quase-consenso público nacional, tornam este programa económico uma inevitabilidade, que se reflectirá certamente na aprovação do próximo Orçamento. Porém, o mais recente relatório do RMF (Research on Money and Finance), coordenado por Costas Lapavitsas, aponta para a insustentabilidade desta trajectória e fornece algumas pistas para a sua superação.
O problema do crescente endividamento externo português (213% do PIB), juntamente com as trajectórias paralelas da Grécia e da Espanha, deveu-se à sistemática perda de competitividade destes países face às maiores economias europeias, no quadro de uma moeda única cuja política é determinada por estas últimas. No contexto de um Banco Central Europeu obcecado com o combate à inflação em detrimento do crescimento, de um pacto de estabilidade e crescimento que impede qualquer esforço público concertado de reconversão das economias e de ausência de mecanismos de redistribuição europeia promotores da coesão, os países com economias mais robustas, como a Alemanha - direccionadas para o mercado externo, com taxas de inflação mais baixas e uma força de trabalho disposta, por razões várias, à perda continuada de poder de compra -, ganharam competitividade em relação às economias periféricas. O resultado foi o crescente endividamento externo de economias como a portuguesa - endividamento esse que, ao contrário do que se possa pensar quando se lê a opinião publicada, tem vindo a ser assumido principalmente pelo sector privado (empresas e famílias, sobretudo as primeiras). 85% da dívida total (interna e externa) actual corresponde ao endividamento do sector privado.
No entanto, em face da recente crise financeira e da fragilidade e volatilidade dos mercados financeiros que lhe têm estado associadas, esta situação possui um reverso da medalha. Os bancos europeus encontram-se fortemente expostos à dívida dos países do Sul: 100 mil milhões de euros, no que se refere a Portugal, e 600 mil milhões, no caso de Espanha. Estas valores são quase tão avultados quanto o montante mobilizado pela UE e pelo FMI para a criação do obscuro fundo de estabilização financeiro que foi anunciado em Maio. Mais grave do que isso é o facto de os bancos se encontrarem confrontados com uma enorme dificuldade em recorrer ao financiamento através de depósitos (a diferença entre a Euribor e as taxas oferecidas nos depósitos foi mesmo negativa durante o segundo semestre de 2009) e com um problema de escassez de dólares (saliente na abertura de linhas de crédito por parte da Reserva Federal norte-americana). No caso português, esta fragilidade traduziu-se mesmo na impossibilidade de recurso ao financiamento nos mercados de capitais, estando os bancos portugueses quase limitados aos empréstimos do BCE. O juro baixo cobrado pelo BCE permite à banca portuguesa realizar margens extraordinárias através dos juros cobrados nos créditos que concede. No entanto, os empréstimos do BCE têm um carácter de curto prazo, o que torna os bancos vulneráveis a eventuais mudanças de política.
No contexto de uma austeridade alargada a todo o espaço europeu e de uma economia mundial dominada pela incerteza e pela possibilidade de um nova recessão, as previsões por parte do Governo português de uma retoma apoiada nas exportações que contrabalance os recessivos cortes públicos parecem, no mínimo, inverosímeis. O resultado será, pois, uma nova recessão e um novo aumento do desemprego, sem que os problemas de dívida pública, em termos relativos face ao PIB, se atenuem. Se a actual volatilidade especulativa nos mercados financeiros se mantiver, a perspectiva de uma reestruturação da dívida pública (a variável politicamente mais saliente no endividamento total) parece inevitável. Este processo será liderado pela Grécia. No entanto, graças ao contágio dos mercados financeiros, depressa afectará o nosso país. Vale assim a pena pensar, num momento em que os países do Sul detêm o poder de negociação sobre os bancos do Norte, em iniciar um processo de reescalonamento transparente da dívida. Este começaria por uma auditoria à dívida pública, seguida de uma renegociação que imponha condições favoráveis aos países devedores. A perspectiva da desagregação da zona euro é, neste cenário, provável. Se tal cenário acarreta riscos, a combinação da desvalorização cambial com a instituição de controlos de capitais e com o controlo público do sistema financeiro poderia permitir uma política industrial capaz de nos tirar da crise que se arrasta há mais de uma década. O cenário contrário será o de uma reestruturação da dívida liderada pelos credores, com as mesmas receitas de sempre: mais austeridade, mais recessão e mais desemprego. Até quando?
Economista, membro do grupo de investigação Research on Money and Finance (www.researchonmoneyandfinance.org)
A Europa entre a austeridade e a renegociação da dívida soberana
Por Nuno Teles (publicado no jornal Público)
Nas últimas duas semanas, por coincidência, dois assuntos dominaram as páginas de economia dos jornais: a aprovação do Orçamento do Estado e a crescente dificuldade de financiamento do Estado português nos mercados de capitais. Não existe um nexo de causalidade necessário entre os dois temas, mas a sua relação é inescapável. Depois da crise em torno da dívida pública dos países do Sul da Europa em Maio, o Governo português comprometeu-se com um programa de estabilidade e crescimento, com o apoio político do PSD, que aponta para um duro caminho de austeridade (só ultrapassado, nas suas previsões draconianas, pelo plano grego). Assim, mesmo sem conhecer ainda o Orçamento, já sabemos o que nos espera: o Governo prevê uma diminuição da despesa pública em 1,3% do PIB em 2011, seguida, em 2012, por uma nova redução em 1,4% - as quais, a par do aumento dos impostos, permitiriam almejar os objectivos de contenção do défice em 3% do PIB e diminuição da dívida pública. Os cortes são, e terão de ser, cegos: na despesa social, no investimento público, nos salários, etc.
As imposições externas, somadas ao estranho quase-consenso público nacional, tornam este programa económico uma inevitabilidade, que se reflectirá certamente na aprovação do próximo Orçamento. Porém, o mais recente relatório do RMF (Research on Money and Finance), coordenado por Costas Lapavitsas, aponta para a insustentabilidade desta trajectória e fornece algumas pistas para a sua superação.
O problema do crescente endividamento externo português (213% do PIB), juntamente com as trajectórias paralelas da Grécia e da Espanha, deveu-se à sistemática perda de competitividade destes países face às maiores economias europeias, no quadro de uma moeda única cuja política é determinada por estas últimas. No contexto de um Banco Central Europeu obcecado com o combate à inflação em detrimento do crescimento, de um pacto de estabilidade e crescimento que impede qualquer esforço público concertado de reconversão das economias e de ausência de mecanismos de redistribuição europeia promotores da coesão, os países com economias mais robustas, como a Alemanha - direccionadas para o mercado externo, com taxas de inflação mais baixas e uma força de trabalho disposta, por razões várias, à perda continuada de poder de compra -, ganharam competitividade em relação às economias periféricas. O resultado foi o crescente endividamento externo de economias como a portuguesa - endividamento esse que, ao contrário do que se possa pensar quando se lê a opinião publicada, tem vindo a ser assumido principalmente pelo sector privado (empresas e famílias, sobretudo as primeiras). 85% da dívida total (interna e externa) actual corresponde ao endividamento do sector privado.
No entanto, em face da recente crise financeira e da fragilidade e volatilidade dos mercados financeiros que lhe têm estado associadas, esta situação possui um reverso da medalha. Os bancos europeus encontram-se fortemente expostos à dívida dos países do Sul: 100 mil milhões de euros, no que se refere a Portugal, e 600 mil milhões, no caso de Espanha. Estas valores são quase tão avultados quanto o montante mobilizado pela UE e pelo FMI para a criação do obscuro fundo de estabilização financeiro que foi anunciado em Maio. Mais grave do que isso é o facto de os bancos se encontrarem confrontados com uma enorme dificuldade em recorrer ao financiamento através de depósitos (a diferença entre a Euribor e as taxas oferecidas nos depósitos foi mesmo negativa durante o segundo semestre de 2009) e com um problema de escassez de dólares (saliente na abertura de linhas de crédito por parte da Reserva Federal norte-americana). No caso português, esta fragilidade traduziu-se mesmo na impossibilidade de recurso ao financiamento nos mercados de capitais, estando os bancos portugueses quase limitados aos empréstimos do BCE. O juro baixo cobrado pelo BCE permite à banca portuguesa realizar margens extraordinárias através dos juros cobrados nos créditos que concede. No entanto, os empréstimos do BCE têm um carácter de curto prazo, o que torna os bancos vulneráveis a eventuais mudanças de política.
No contexto de uma austeridade alargada a todo o espaço europeu e de uma economia mundial dominada pela incerteza e pela possibilidade de um nova recessão, as previsões por parte do Governo português de uma retoma apoiada nas exportações que contrabalance os recessivos cortes públicos parecem, no mínimo, inverosímeis. O resultado será, pois, uma nova recessão e um novo aumento do desemprego, sem que os problemas de dívida pública, em termos relativos face ao PIB, se atenuem. Se a actual volatilidade especulativa nos mercados financeiros se mantiver, a perspectiva de uma reestruturação da dívida pública (a variável politicamente mais saliente no endividamento total) parece inevitável. Este processo será liderado pela Grécia. No entanto, graças ao contágio dos mercados financeiros, depressa afectará o nosso país. Vale assim a pena pensar, num momento em que os países do Sul detêm o poder de negociação sobre os bancos do Norte, em iniciar um processo de reescalonamento transparente da dívida. Este começaria por uma auditoria à dívida pública, seguida de uma renegociação que imponha condições favoráveis aos países devedores. A perspectiva da desagregação da zona euro é, neste cenário, provável. Se tal cenário acarreta riscos, a combinação da desvalorização cambial com a instituição de controlos de capitais e com o controlo público do sistema financeiro poderia permitir uma política industrial capaz de nos tirar da crise que se arrasta há mais de uma década. O cenário contrário será o de uma reestruturação da dívida liderada pelos credores, com as mesmas receitas de sempre: mais austeridade, mais recessão e mais desemprego. Até quando?
Economista, membro do grupo de investigação Research on Money and Finance (www.researchonmoneyandfinance.org)
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Época dos furacões no Atlântico
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
O drama das economias periféricas do euro
A economia regressa ao futuro
por João Rodrigues, Publicado em 13 de Setembro de 2010 no jornal i |
Às periferias europeias resta usarem uma das armas dos fracos: renegociar a sua dívida, partilhando os custos dos ajustamentos com os bancos dos países centrais
As férias dos especuladores, dos que vivem da compra e venda de activos financeiros, tendo como fito o aproveitamento da variação dos preços e a expropriação financeira dos mais fracos, também acabaram. Portugal regressa ao turbilhão dos mercados da dívida pública: os juros da dívida pública portuguesa atingiram o valor mais elevado desde a irresponsável instituição de um euro sem governo económico e sem um banco central digno desse nome.
Na convenção PIGS que se formou nos mercados financeiros internacionais, o i de Irlanda, antes tão incensado pelos economistas neoliberais devido às suas políticas de austeridade, é agora, a par do g de Grécia, o contagioso elo mais fraco. Ao contrário do que diz a fraude económica, as políticas de austeridade, com cortes na despesa e aumentos regressivos de impostos, acrescentam crise à crise da procura, a origem do desemprego de massas, e alimentam todas as profecias auto-realizadoras dos especuladores.
A zona euro não tinha de se esfarelar assim. Atentem no Japão: um país com uma dívida pública sem precedentes, que representa 227% do seu PIB, consequência da oscilação, que dura há mais de uma década, entre recessão e estagnação, depois do rebentamento de uma bolha imobiliária causada pela liberalização do sistema financeiro. Apesar dessa dívida, o Japão não tem problemas de financiamento, porque tem um banco central que faz o que é tão necessário como escandalosamente simples: detém metade da dívida pública do país, imprimindo moeda para a adquirir e devolvendo os juros ao governo. Os países verdadeiramente soberanos podem fazer coisas semelhantes: do Canadá ao Reino Unido, passando pelos EUA.
O horror da inflação! Já ouço os gritos dos economistas que vivem numa bolha académica feita de agentes omniscientes e de mercados auto- -regulados. Onde está a inflação no Japão? Onde? Na Europa ou no Japão, aliás, o problema é a deflação e os seus efeitos perversos: aumento do fardo real da dívida e destruição da capacidade produtiva. As transferências financeiras para os Estados europeus com problemas, por outro lado, são escandalosamente pequenas para uma região que partilha a mesma moeda. A tragédia da zona euro é que, graças aos tratados bizarros, inspirados nos ainda mais bizarros modelos económicos, o BCE só pode salvar o euro se agir na linha do teórico protofascista alemão Carl Schmitt: soberano é aquele que define a excepção à regra.
Sem poderem imprimir moeda e sem o mecanismo de desvalorização cambial, numa União que parece um FMI na América Latina, resta às periferias europeias usarem uma das armas dos fracos, como é defendido num novo relatório do Research on Money and Finance (www.researchonmoneyandfinance.org): renegociarem a sua dívida, partilhando os custos do ajustamento com os bancos dos países centrais. Para resultar, este processo tem de ser organizado por iniciativa dos devedores. Caso contrário, vão ser os credores a ditar as regras do jogo. Preparemo-nos: a luta política é a única variável económica que pode alterar as coisas.
Economista, Centro de Estudos Sociais
por João Rodrigues, Publicado em 13 de Setembro de 2010 no jornal i |
Às periferias europeias resta usarem uma das armas dos fracos: renegociar a sua dívida, partilhando os custos dos ajustamentos com os bancos dos países centrais
As férias dos especuladores, dos que vivem da compra e venda de activos financeiros, tendo como fito o aproveitamento da variação dos preços e a expropriação financeira dos mais fracos, também acabaram. Portugal regressa ao turbilhão dos mercados da dívida pública: os juros da dívida pública portuguesa atingiram o valor mais elevado desde a irresponsável instituição de um euro sem governo económico e sem um banco central digno desse nome.
Na convenção PIGS que se formou nos mercados financeiros internacionais, o i de Irlanda, antes tão incensado pelos economistas neoliberais devido às suas políticas de austeridade, é agora, a par do g de Grécia, o contagioso elo mais fraco. Ao contrário do que diz a fraude económica, as políticas de austeridade, com cortes na despesa e aumentos regressivos de impostos, acrescentam crise à crise da procura, a origem do desemprego de massas, e alimentam todas as profecias auto-realizadoras dos especuladores.
A zona euro não tinha de se esfarelar assim. Atentem no Japão: um país com uma dívida pública sem precedentes, que representa 227% do seu PIB, consequência da oscilação, que dura há mais de uma década, entre recessão e estagnação, depois do rebentamento de uma bolha imobiliária causada pela liberalização do sistema financeiro. Apesar dessa dívida, o Japão não tem problemas de financiamento, porque tem um banco central que faz o que é tão necessário como escandalosamente simples: detém metade da dívida pública do país, imprimindo moeda para a adquirir e devolvendo os juros ao governo. Os países verdadeiramente soberanos podem fazer coisas semelhantes: do Canadá ao Reino Unido, passando pelos EUA.
O horror da inflação! Já ouço os gritos dos economistas que vivem numa bolha académica feita de agentes omniscientes e de mercados auto- -regulados. Onde está a inflação no Japão? Onde? Na Europa ou no Japão, aliás, o problema é a deflação e os seus efeitos perversos: aumento do fardo real da dívida e destruição da capacidade produtiva. As transferências financeiras para os Estados europeus com problemas, por outro lado, são escandalosamente pequenas para uma região que partilha a mesma moeda. A tragédia da zona euro é que, graças aos tratados bizarros, inspirados nos ainda mais bizarros modelos económicos, o BCE só pode salvar o euro se agir na linha do teórico protofascista alemão Carl Schmitt: soberano é aquele que define a excepção à regra.
Sem poderem imprimir moeda e sem o mecanismo de desvalorização cambial, numa União que parece um FMI na América Latina, resta às periferias europeias usarem uma das armas dos fracos, como é defendido num novo relatório do Research on Money and Finance (www.researchonmoneyandfinance.org): renegociarem a sua dívida, partilhando os custos do ajustamento com os bancos dos países centrais. Para resultar, este processo tem de ser organizado por iniciativa dos devedores. Caso contrário, vão ser os credores a ditar as regras do jogo. Preparemo-nos: a luta política é a única variável económica que pode alterar as coisas.
Economista, Centro de Estudos Sociais
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
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